A navegação interior no Rio Grande do Sul, tanto de cargas, como de passageiros,
floresceu até a década de quarenta, ao fim da qual iniciou sua decadência, por
diversos motivos, tais como a evolução do porte dos veículos rodoviários, a melhoria
da malha rodoviária e ferroviária bem como a implantação de uma política e legislação
trabalhista diferenciada para a navegação interior.
No final da década de cinqüenta, a comunidade gaúcha e o setor público despertaram
para a necessidade de reativação do transporte hidroviário interior sendo,
então, elaborado o PLANO HIDROVIÁRIO DO ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL, aprovado
pela Resolução 16 do Conselho Hidroviário do Estado, em 29 de março de 1961.
A partir do início dos anos 70
foram executadas, com recursos públicos principalmente oriundos da União
através dos extintos DNPVN (Departamento Nacional de Portos e Vias Navegáveis)
e da PORTOBRÁS (Empresa de Portos do Brasil S.A.), as obras das barragens
eclusadas do Anel de Dom Marco e Amarópolis no rio Jacuí e Bom Retiro do Sul no
Taquarí, bem como a dragagem e derrocamento dos canais de navegação ao longo
dos rios Jacuí e Taquarí.
As obras em questão, juntamente com a barragem eclusada de Fandango implantada na
década de 50 no rio Jacuí, deram novo impulso ao transporte hidroviário do Rio
Grande do Sul, tornando-o uma atividade econômica importante para o
desenvolvimento do Estado.
BARRAGEM DE BOM RETIRO DO SUL
A Barragem de Bom Retiro do Sul, única implantada no rio Taquari, está localizada
em seu PK 121, 65 km à montante de sua foz, junto à cidade de Bom Retiro do
Sul; seu remanso de aproximadamente 30 km., proporciona um estirão navegável
total de aproximadamente 150 km no rio Taquari, ligando as cidades de
Triunfo/São Jerônimo (foz do rio Taquari na sua confluência com o rio Jacui)
com Arroio do Meio, localizado cerca de 10 km à montante do Porto Fluvial de
Estrela.
O barramento de Bom Retiro do Sul é constituído por uma barragem dotada de seis
comportas duplas do tipo vagão, com 17,00 m de largura, de descarga de fundo, apresentando cota
de represamento de 13,00 m.
Em sua margem esquerda foi implantada uma eclusa com dimensões, em planta,
idênticas às de Amarópolis e Anel de Dom Marco, ambas no rio Jacui, ou seja 120
m de comprimento por 17 m de largura apresentando um desnível máximo de 11,80
m.
Na
margem direita encontra-se um vertedouro fixo, com 50 m de extensão, construído
em substituição à uma usina hidroelétrica projetada mas não implantada –
atualmente há empresas interessadas em sua construção.
Igualmente
na margem direita foi construída uma escada de peixes com a finalidade de
permitir sua migração por ocasião da piracema.
As
operações da eclusa realizam-se durante as vinte e quatro horas do dia, havendo
interrupções somente motivadas por ocorrência de águas altas (cota de jusante
superior a 8,00 m) e realização de manutenções periódicas.
BARRAGEM DO FANDANGO
Em
1953 iniciaram-se as obras da Barragem-ponte do Fandango, cujo remanso
apresentava extensão superior a 60 km, ultrapassando a foz do Vacacaí,
principal tributário pela margem direita.
Localizada
no PK 230 do rio Jacuí, junto à cidade de Cachoeira do Sul, foi a primeira das
obras de canalização construída naquele curso d´água, tendo sido concluída em
1958.
A
barragem, com 170 m de extensão, é composta de três passos, sendo dois dotados
de alças tipo Aubert com 1,50 m de largura, sendo 23 integrantes do passo 1
(3,25 m de altura) e 38 do passo 2 (4,75 m de altura), todas elas coroadas na
cota 18,00; junto à margem direita está situado o vertedouro fixo, com 57,45 m
de comprimento, no qual foi implantada uma escada de peixes nos anos de
1976/77.
Junto
à margem esquerda, foi localizada a eclusa, que possui 85 m x 15 m,
apresentando o desnível máximo de 4,50 m; cabe ressaltar que a eclusa possui
dimensões inferiores a dos demais barramentos, tendo em vista que foi
construída em época anterior.
A
estrutura metálica, utilizada para a movimentação dos carros de manobra das
alças da barragem, serviu para que fosse construída uma ponte rodoviária com
faixa dupla, que passou a integrar a rodovia BR-453, unindo a cidade de
Cachoeira do Sul à BR-290.
Na
área da Administração da Barragem localiza-se uma oficina dotada dos mais
variados equipamentos, onde são realizados diversos serviços de manutenção,
destacando-se a construção e recuperação de bóias e correntes metálicas
utilizadas na sinalização nos rios Jacuí e Taquari.
BARRAGEM DO ANEL DE DOM MARCO
Em
1966, oito anos após a conclusão das obras da Barragem do Fandango era
iniciada, 63 km a jusante, a Barragem do Anel de Dom Marco; sua construção
desenvolveu-se ao longo de seis anos, tendo sido inaugurada em 1972.
A
Barragem e Eclusa de Dom Marco, situada a 167 quilômetros de Porto Alegre, no
município de Rio Pardo, constitui o segundo degrau da hidrovia do rio Jacuí
através da criação de um remanso de 63 km para navegação, atingindo a Barragem
do Fandango, em Cachoeira do Sul.
A
Barragem é do tipo semimóvel, com 220 metros de extensão, composta de dois
vertedouros fixos, junto às margens e quatro vãos móveis reguladores,
constituídos de uma parte fixa sobre a qual se apoiam quatro comportas
lenticulares, cada uma com 22 metros de comprimento, todos respaldados na cota
13,50 m.
Quando
da ocorrência de cheias no rio Jacui, há o desarme sucessivo e automático das
quatro comportas, sendo que o seu reposicionamento após a passagem da onda de
cheia é realizado através do acionamento de equipamentos hidráulicos, desde a
torre de comando, situada à margem esquerda.
A
Barragem é atravessada, em toda sua extensão, por um túnel, que interliga ambas
as torres, bem como permite fácil acesso aos servomecanismos das comportas, que
estão instaladas no interior dos pilares, existentes nas extremidades dos
trechos móveis.
O
barramento introduz um desnível de 7,50 metros, que é transposto através de uma
eclusa construída num canal artificialmente dragado, afastado cerca de 800
metros da barragem, o que evita a navegação através de um meandro do rio, com
cerca de 8 km encurtando, dessa forma, o percurso das embarcações naquele
trecho.
A
eclusa, implantada independentemente do barramento, é constituída por uma
câmara de 120 metros de comprimento por 17 metros de largura, é dotada de dois
portões metálicos duplos, sendo que os de montante possuem 6,80 metros de
altura enquanto que os de jusante apresentam a altura de 14,80 metros, ambos
respaldados na cota 17,50 m.
A
diferença de cotas existentes entre os níveis de represamento (13,50 m) e da
face superior dos portões (17,50 m), determinam a faixa de operação da hidrovia
naquele local – cerca de 4,00 m.
O
acionamento dos portões, assim como das comportas de enchimento e esvaziamento,
é realizado a partir da torre de comando, situada junto à câmara em sua margem
esquerda, através da utilização de equipamentos hidráulicos.
Cabe
salientar que a implantação do canal artificial onde foi implantada a eclusa,
originou a criação de uma ilha, cujo acesso é realizado através de uma ponte
elevadiça situada junto ao portão de montante da eclusa – a propósito, o acesso
às instalações do barramento também é realizado pela referida ponte.
BARRAGEM DE AMARÓPOLIS
No ano de 1971 teve início a construção da Barragem de Amarópolis, localizada no
PK 74 do rio Jacui, entre os municípios de General Câmara e Butiá. As obras
desenrolaram-se durante o período de três anos, tendo sido concluídas em
dezembro de 1974.
A
Barragem de Amarópolis, embora tendo sido a terceira obra implantada na
Hidrovia do Jacui, se constituía, efetivamente, no primeiro degrau a ser
transposto pelas embarcações que se dirigissem de jusante para montante a
partir de Porto Alegre ou do Rio Taquari, em direção às instalações de
atracação existentes ao longo do Jacui, principalmente nos municípios de Rio
Pardo (onde foi implantado um porto na década de 40) e Cachoeira do Sul.
Amarópolis
encontra-se localizada a 74 km de Porto Alegre. Juntamente com as barragens eclusadas
do Anel de Dom Marco – no município de Rio Pardo, e Fandango – em Cachoeira do
Sul, propiciam um estirão navegável de aproximadamente 300 km ao longo do rio
Jacuí, permitindo, em qualquer época do ano, a navegação até os portos de
Estrela – no rio Taquari, Rio Grande – porto marítimo na extremidade sul da
Lagoa dos Patos, e Santa Vitória do Palmar, no extremo sul do estado e do país,
proporcionando cerca de 880 km de vias navegáveis interiores no Rio Grande do
Sul.
O
barramento é constituído de dois passos navegáveis onde foram implantadas um
total de 84 alças (aproximadamente 3 t cada uma) tipo Aubert, sendo 42 em cada
vão, todas com 2,00 m de largura por 6,32 m de altura, respaldadas na cota 5,50
m, proporcionando um desnível de 4,50 m; visando sua manobra, foi construída
uma ponte metálica, com 720 toneladas de peso total, sobre a qual foram
instalados dois carros de manobra destinados à movimentação das alças.
Junto
à barragem, em sua margem esquerda, foi construída uma eclusa com dimensões, em
planta, idênticas às da Barragem do Anel de Dom Marco, ou seja, 120 m x 17 m,
sendo o enchimento da câmara efetuado através de aquedutos alimentados por
comportas tipo vagão.
À
montante da eclusa foi implantado um muro guia com 50 m de comprimento, enquanto
que a jusante foi construído um cais de atracação com 64 m de comprimento.
Na
margem direita, junto ao pilar, foi construída uma escada de peixes que serve
para migração dos mesmos na época da piracema que normalmente ocorre de
dezembro de um ano até março do ano subseqüente.
Fazendo
parte do conjunto barragem-eclusa, foi construído um dique de terra na margem
direita, com extensão de 1.900 m, estando a jusante protegido com enrocamento
tipo tout-venant.
Para
movimentar os equipamentos da eclusa, foi construída, na margem esquerda, uma
Casa de Comando, com seu piso na cota 14,60 m.
Em
torre independente localizada na margem esquerda, estão instalados dois
transformadores de 160 KVA e um grupo gerador de emergência, diesel-elétrico,
com 160 KVA, destinado a operar em caso de falta de energia elétrica.
Nas
imediações da barragem, o rio Jacuí apresenta a característica de possuir seu
leito maior freqüentemente inundável, devido à pequena altura das suas
barrancas.
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